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PRINTS: mensagens de celular furtado da delegacia onde detenta foi estuprada revela tratamento a outras presas em MT

Um celular oficial da delegacia da Polícia Civil de Sorriso (MT) foi furtado no começo de dezembro do ano passado, poucos dias antes de uma detenta ser vítima de estupro na unidade, e as mensagens trocadas entre policiais em um suposto grupo no WhatsApp mostram o tratamento dado a algumas mulheres encarceradas, além de outras situações em abordagens.

Em dezembro do ano passado, um grupo de advogados criminalistas se reuniu para discutir sobre os prints vazados que, supostamente, revelam condutas irregulares dos policiais. A denúncia foi formalizada por eles à Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT), ao Ministério Público do estado (MPMT), à Corregedoria da Polícia Civil e à Associação Nacional da Advocacia Criminal (Anacrim).

A Corregedoria Geral da Polícia Civil informou que recebeu a denúncia nessa quinta-feira (5). Já a OAB-MT e o Tribunal de Defesa das Prerrogativas (TDP) afirmaram que encaminharam um ofício solicitando providências ao corregedor-geral da Polícia Civil e aguardam mais informações para investigação.

Procurado pela reportagem, o Ministério Público disse que não recebeu nenhuma denúncia formal sobre o assunto.

Após o caso da detenta ter denunciado ter sido estuprada na delegacia, o g1 teve acesso a mensagens e áudios vazados do celular oficial. Elas mostram a existência de um grupo intitulado “DHPP/Assuntos Oficiais”, sendo uma referência à Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa, o nome da unidade.

As imagens dos prints foram checadas por meio do Foto Forensisc, um serviço online que mostra se uma imagem foi ou não alterada. O resultado aponta que não houve adulteração no conteúdo das mensagens.

À época do furto do aparelho e vazamento de algumas imagens, o delegado titular Bruno França, afirmou à imprensa que trechos das conversas foram apagados e editados para prejudicar o trabalho da Polícia Civil e sugerir condutas ilegais da equipe.

No dia 6 de novembro, um print mostra a conversa entre os policiais sobre uma das detentas. Um deles fala para dar “uma escaldada nessa piranha, rapaz, pode comer”. E acrescenta uma risada escrita. No grupo, ainda há uma mulher, que reage com surpresa com a resposta dos colegas (confira abaixo).

Print mostra conversa entre policiais em grupo de mensagens em MT — Foto: Reprodução

Outras mensagens vazadas apontam possíveis infrações, segundo uma fonte consultada, que apontou o significado e o contexto de alguns termos usados nas conversas:

  • “Meter flagrantão no pelo” é forjar prisão em flagrante.
  • Um delegado alerta para somente lesionar (torturar) presos a partir da segunda quinzena de março, quando o médico legista que, supostamente, deixa de constatar as lesões, retornaria das férias.
  • “O celular dele tá com o B* instalado” significa que os policiais tiveram acesso e manusearam o celular de um investigado e instalaram um aplicativo espião, para monitorar de forma ilegal as mensagens do investigado.
  • “A gente tá pegando uma arma e rodando ela pelos confrontos” indica que a mesma arma está sendo ‘plantada’ em ‘confrontos’ entre a polícia e suspeitos. Nestes ‘confrontos’, o resultado é sempre a morte do suspeito (veja na imagem abaixo).

 

Print mostra conversa para plantar suposta arma em confronto em MT — Foto: Reprodução

Outros casos

Outros casos formalizados em denúncias no MP, em 2024, sobre a mesma equipe da delegacia apontam para possíveis abusos de autoridade.

No dia 13 de janeiro de 2024, uma jovem denunciou que foi agredida na porta de casa pelos policiais e levada dentro da viatura até um matagal. No trajeto, quatro deles teriam dita a ela, em tom de ameaça, que usariam o cano da arma para abusá-la.

Ao chegarem no local, um deles teria pego um pedaço de madeira, conforme o depoimento dela, enquanto outro a segurava no mato. Eles teriam batido no braço dela e falado que “ninguém iria socorrê-la”. No relato, a jovem disse que a todo momento era questionada sobre quem seria o autor de um homicídio na cidade.

Ela negou qualquer envolvimento com facção criminosa, mas, conforme relatou ao MP, o irmão dela e o amigo dele poderiam estar envolvidos no crime. Assim que entregou esses nomes aos policiais, eles saíram do matagal com ela e foram até a delegacia, onde familiares da jovem a esperavam na frente da unidade.

Este caso, contudo, permanece parado e a investigação não teve andamento.

Estupro na delegacia

 

A atenção sobre a delegacia veio à tona após uma detenta ter denunciado que foi estuprada cerca de quatro vezes por um investigador dessa mesma delegacia, em dezembro do ano passado.

Ela estava detida após ser apontada por participação em um homicídio, no entanto, foi solta depois por falta de provas. Em seguida, relatou o caso ao advogado e, depois, procurou o Ministério Público para formalizar a denúncia.

Ainda de acordo com a declaração da defesa, o investigador retirava a mulher da cela e a levava para uma sala vazia. Nas quatro ocasiões, segundo o advogado, o abusador ordenou que a vítima ficasse em silêncio, sob a ameaça de matar a filha dela, que é menor de idade.

A delegada responsável pelo caso, Layssa Crisóstomo, informou que, após a denúncia, a vítima passou por exame pericial com coleta de material genético, que foi confrontado com o de todos os policiais que estavam de plantão no dia do crime. Os exames apontaram compatibilidade do material genético com o de Manoel, reforçando a suspeita de violência sexual.

Ainda conforme a delegada, outras presas foram ouvidas, mas, até a publicação desta reportagem, não houve novas denúncias contra o policial. A Polícia Civil investiga esse caso.

O Noroeste

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