Nas duas imagens de cima estão Luciene Naves e Laila Caroline. Já na coluna de baixo estão Ana Paula e Jaqueline de Araújo — Foto: Reprodução
No Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), os números lembram que a luta por proteção e segurança ainda é urgente. Em Mato Grosso, mais de 18 mil mulheres precisaram de medidas protetivas em 2025, um aumento de 2% em relação ao ano anterior, quando foram registradas 17,9 mil.
Cada número representa uma vida marcada pelo medo, pela violência e pela necessidade de proteção, mostrando que, mesmo com a aprovação de leis de proteção, a defesa das mulheres continua sendo um desafio diário.
Apesar do avanço no acesso ao mecanismo de proteção previsto na Lei Maria da Penha, outro dado preocupa: o descumprimento dessas decisões judiciais também aumentou. Os registros de desobediência às medidas protetivas cresceram 15%, passando de 2,1 mil casos em 2024 para 2,4 mil em 2025.
Esse tipo de violação ocorre quando o agressor ignora determinações judiciais, como a proibição de se aproximar da vítima ou de manter contato. De acordo com o levantamento, 35% dos feminicídios registrados no estado tiveram relação com descumprimento de medidas protetivas.
A delegada titular da Delegacia da Mulher de Cuiabá, Judá Marcondes, explicou, na prática, o que acontece quando a mulher procura a delegacia para pedir medida protetiva.
Em Mato Grosso, foram concedidas 5,5 mil autorizações de uso do botão do pânico em 2025. Esse número representa um aumento de 3% em relação ao ano anterior, quando 5,3 mil autorizações foram registradas.
No entanto, mesmo com esses instrumentos de proteção, os dados revelam um cenário alarmante quando se analisam os casos de feminicídio. Segundo o Relatório das Mortes Violentas de Mulheres e Meninas por Razão de Gênero – 2025, elaborado pela Polícia Civil de Mato Grosso, 80% das vítimas de feminicídio não chegaram a registrar denúncia contra o autor do crime, que na maioria das vezes era o parceiro ou ex-parceiro.
Apenas 20% das vítimas formalizaram denúncia contra o agressor, e mesmo assim acabaram assassinadas. Entre esses casos, sete mulheres, o equivalente a 13% das vítimas, estavam com medida protetiva de urgência ativa no momento em que foram mortas.
A delegada avalia que um dos principais desafios para garantir a efetividade das medidas protetivas ainda está relacionado a fatores culturais. Segundo ela, muitos agressores têm dificuldade em aceitar o fim do relacionamento e a autonomia das mulheres, o que pode levar a comportamentos de controle, perseguição e descumprimento das decisões judiciais.
“O maior desafio é cultural. Muitos homens ainda não aceitam o fim do relacionamento ou a autonomia da mulher e insistem em manter controle e perseguição. O controle e ciúmes muitas vezes é naturalizado pela sociedade dizendo que é um comportamento natural do homem, quando na verdade isso é já é crime”, pontuou.
Os dados também apontam que muitas dessas vítimas já tinham histórico de violência. Cerca de 28% das mulheres assassinadas já haviam enfrentado situações de agressão em relacionamentos anteriores ou no ambiente familiar.
A delegada conta que muitos homens que cometem violência apresentam características claras de controle e manipulação. Segundo ela, esses comportamentos nem sempre são facilmente reconhecidos pelas vítimas, pois podem se confundir com demonstrações de carinho.
Ela aponta que o ciúme excessivo é um dos principais sinais, embora muitas vezes venha disfarçado de amor. Os agressores podem mandar flores, se mostrar românticos e tentar reconquistar a mulher depois de episódios de violência, criando um ciclo confuso para a vítima.
Para a delegada, essa combinação de controle, ciúme e manipulação não é apenas sobre comportamento, mas também reflete questões de autoestima e tentativa de dominar a parceira, tornando essencial que as mulheres consigam identificar esses sinais cedo.
“Em muitos casos, o agressor é um homem controlador, muito ciumento e manipulador. Esse ciúme, muitas vezes, vem disfarçado de amor. Isso faz com que a vítima confunda esse comportamento com carinho. Mas, na verdade, esse controle está ligado à tentativa de dominar a mulher e, muitas vezes, a uma baixa autoestima que se manifesta por meio da violência”, pontuou.
Até 2 de março de deste ano, quatro feminicídios foram contabilizados no estado, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SESP-MT).
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