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Neve em MT? Antes da divisão que deu origem a MS, cidades registraram −2,4 °C e gelo ao amanhecer

Neve em Mato Grosso? Com a chegada do outono na última sexta-feira (20), registros oficiais e arquivos de jornais relembram que, em julho de 1975, dois anos antes da divisão que criou o estado de Mato Grosso do Sul, o então sul de Mato Grosso enfrentou frio extremo, com termômetros marcando até 2,4°C abaixo de zero.

Entre os dias 6 e 7 de julho, a região conhecida pelo clima quente, com temperaturas elevadas ao longo do ano, amanheceu irreconhecível. As ruas estavam encobertas por uma fina camada branca e o silêncio típico das primeiras horas da manhã foi quebrado pelos passos curiosos de moradores que saíram de casa para confirmar o improvável: tinha nevado.

À época, regiões como Ponta Porã e Bandeirantes, que hoje pertencem a MS, ainda faziam parte do território mato-grossense.

Neve em MT: arquivos mostram frio abaixo de zero em 1975, antes da divisão do estado — Foto: Arte/g1

Dados do Arquivo Público de Mato Grosso e edições digitalizadas de jornais impressos relatam os impactos da onda de frio que atingiu o estado. Um decreto publicado em agosto daquele ano destinou 200 mil cruzeiros à Prefeitura de Campo Grande para custear despesas com os danos causados pela geada. Naquele ano, a pecuária, a cafeicultura e a produção de trigo foram prejudicadas e muitas lavouras tiveram perda total.

O meteorologista Natalio Abraão, hoje com 79 anos, contou que presenciou a neve cair do céu e fez, à própria mão, o primeiro registro da temperatura naquele dia histórico. À época com 34 anos, ele trabalhava no setor de Proteção ao Voo em Ponta Porã, área responsável por fornecer informações essenciais para a segurança das operações aéreas nos aeroportos.

Abraão disse que essa foi a primeira vez que viu o fenômeno de perto, fora dos livros. Mesmo tendo atuado em cidades como Recife e também em Canoas, no Rio Grande do Sul — estado conhecido pelas baixas temperaturas —, nunca havia presenciado algo semelhante.

Segundo ele, o estado enfrentou um frio intenso durante todo o mês de julho, mas que nos dias 6 e 7 foi registrada uma das pressões atmosféricas mais altas já observadas, em torno de 1035 hPa (unidade de medida de pressão atmosférica usada em meteorologia) — acima da média considerada normal, de 1013 hPa.

Ele explicou que, quanto maior a pressão, mais favorecidas ficam as condições para queda de temperatura. A consequência foi a marca de 2,4°C abaixo de zero.

Abraão recordou ainda que viu uma espécie de “chuva de neve”, ao lado de dois colegas, observando os flocos caírem das nuvens.

“É uma coisa que impressiona, né? Eu já tinha visto geada, plantas congeladas, mas a neve caindo do céu era novidade. Você saía andando e via”, contou.

 

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Entenda o fenômeno

 

O meteorologista Guilherme Borges explicou que o fenômeno registrado em 1975 esteve associado a uma forte onda de frio provocada pela entrada de uma massa de ar frio continental. Segundo ele, o sistema veio acompanhado de precipitação sobre uma camada de ar muito fria, o que favoreceu a ocorrência de neve na região.

Meteorologista Guilherme Borges explica fenômeno

“Ondas de frio durante o inverno são relativamente comuns. Nesse período do ano, as temperaturas médias já são mais baixas, e a entrada de massas de ar frio mais potentes favorece uma queda mais acentuada das temperaturas, como ocorreu em julho de 1975”, explicou.

O meteorologista destacou ainda que outro fator determinante para o registro da neve foi a combinação entre chuva e temperaturas muito baixas. “A precipitação sobre uma camada extremamente fria favoreceu a formação do fenômeno naquele episódio”, completou.

Pode acontecer de novo?

 

É raro, mas pode acontecer. Ainda de acordo com Borges, para que a neve volte a ocorrer na região é necessária a combinação de alguns fatores específicos:

  • Atuação de uma massa de ar polar muito potente
  • Presença de uma camada de ar muito frio próxima à superfície e precipitação sobre essa camada
  • Ocorrer em áreas de maior altitude

 

Segundo ele, esse conjunto de condições torna o fenômeno raro.

“Hoje, o clima está cada vez mais seco, inclusive no inverno, e o calor tem se intensificado na atmosfera por causa do aquecimento global. Isso deixa a ocorrência de neve bem menos provável. É um evento pouco suscetível de acontecer, mas não está totalmente descartado”, explicou.

Para a pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em História (NPH) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Juliana Rosa, o espanto em torno do episódio ocorre porque Mato Grosso é conhecido pelo clima quente, com temperaturas elevadas ao longo do ano.

No entanto, Juliana disse que o fenômeno registrado em 1975 não deve ser entendido como um evento isolado, mas como um episódio documentado e divulgado à época, o que não exclui a possibilidade de que situações semelhantes tenham ocorrido em outros momentos na região afetada.

Outro ponto destacado pela pesquisadora é a diferença climática dentro do próprio estado naquele período. Cidades como Dourados, Bandeirantes e Ponta Porã ficam a mais de 600 km de Cuiabá e apresentam condições climáticas distintas das da atual capital mato-grossense.

Divisão dos estados

Reveja momentos históricos da ‘festa da divisão’

A divisão do estado ocorreu há 48 anos, em 11 de outubro de 1977, por decreto do presidente Ernesto Geisel. De acordo com Juliana, os projetos e propostas de divisão não surgiram apenas na década de 1970, mas remontam a períodos anteriores. Isso porque já existiam diferenças culturais, sociais e econômicas expressivas, ressaltadas principalmente pelo sul do então estado.

Segundo Juliana, Campo Grande se desenvolveu de forma mais intensa no período republicano, enquanto outros municípios surgiram a partir de um processo de reocupação do território, sobretudo ligado à criação de gado.

A pesquisadora também destacou uma diferença de perspectiva sobre o processo histórico: “Para nós, de Mato Grosso, ocorreu a divisão do estado. Para eles, de Mato Grosso do Sul, o que houve foi a criação de um novo estado. Essa diferença de percepção aparece tanto na historiografia quanto na opinião pública”, afirmou.

Governando Arry Amorim Costa assinando o termo de posse. — Foto: Roberto Higa/Divulgação

O Noroeste

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