Categories: ALMT

Ano novo, mesa vazia: a realidade dos pescadores de MT

O ano de 2025 terminou, mas para milhares de pescadores artesanais de Mato Grosso as dificuldades atravessaram o calendário e se agravaram no início de 2026. O ano começou, mas a comida ainda não chegou à mesa de muitas famílias que vivem da pesca, justamente aquelas que, ao longo de toda a vida, garantiram alimento na mesa da população mato-grossense.

São cerca de 16 mil pescadores, organizados em 22 colônias, impedidos de exercerem sua atividade durante o período da Piracema, iniciada em 1º de outubro e que se estenderá até 31 de janeiro deste ano. Com isso, eles deveriam estar recebendo o Seguro-Defeso, benefício do Governo Federal, que assegura a subsistência deles, enquanto a pesca é proibida. Mas, infelizmente, segue atrasado o pagamento. Diante da situação, sem poder trabalhar e sem o auxílio, essas famílias enfrentam um cenário de extrema vulnerabilidade social.

Desde o início desse problema, tenho atuado de forma firme em defesa da categoria pesqueira. Tenho cobrado providências dos órgãos competentes, levado o tema ao plenário da Assembleia Legislativa, apresentado requerimentos, promovido debates e dialogado com representantes do Governo Federal para exigir agilidade no pagamento do Seguro-Defeso. Além disso, entrei em contato direto com a Secretaria de Assistência Social de Mato Grosso (Setasc) para verificar a possibilidade da destinação de cestas básicas aos pescadores (sendo que apenas 2.600 pescadores cadastrados e elegíveis no programa Repesca do governo estadual – poderiam ser beneficiados), mas não obtivemos o retorno.

O atraso do benefício atinge diretamente o básico: alimentação, pagamento de contas e manutenção da dignidade. Muitos pescadores estão sobrevivendo com ajuda de familiares, amigos e ações solidárias. Em algumas comunidades, já há relatos de insegurança alimentar – uma contradição cruel para quem sempre teve como missão garantir peixe e sustento para a sociedade.

Além do atraso do Seguro-Defeso, os pescadores enfrentam os impactos da atual Lei Estadual da Pesca, em vigência há dois anos, que trouxe mudanças severas e ampliou a insegurança jurídica e econômica da categoria. O resultado é o empobrecimento de comunidades inteiras e o abandono de trabalhadores que sempre viveram de forma honesta e sustentável.

Defendo que a preservação ambiental é fundamental, mas ela não pode caminhar dissociada da justiça social. É possível proteger os rios, respeitar o período da Piracema e, ao mesmo tempo, garantir políticas compensatórias eficientes, que assegurem renda e dignidade aos pescadores artesanais.

Quando a comida não chega à mesa de quem sempre levou alimento à mesa do cidadão, algo está profundamente errado. Não se trata de favor, mas de direito. Não se trata de assistência, mas de respeito.

Seguirei atuando, cobrando e propondo soluções para que o Seguro-Defeso seja pago, para que a legislação seja revista e os pescadores artesanais de Mato Grosso tenham as suas vozes ouvidas, porque a fome não pode ser naturalizada e a dignidade não pode ser perdida.

*Wilson Santos -e deputado estadual de Mato Grosso.

O Noroeste

Recent Posts

Servidores públicos e empresários são investigados por esquema de corrupção em obras imobiliárias em MT

Investigação apura suposto esquema envolvendo processos administrativos de obras e empreendimentos imobiliários em Sinop, na…

2 horas ago

Três advogados são investigados por falsificar decisão judicial em MT

Operação cumpre quatro mandados de busca em Cuiabá após servidores identificarem irregularidades em documento que…

2 horas ago

Acordo prevê R$ 130 milhões na construção de 22 unidades integradas da PM e Bombeiros

O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) firmou, nesta terça-feira (27), um Termo de Ajustamento…

2 horas ago

Operação da Polícia Civil e MAPA mira empresas suspeitas de comercializar insumos agrícolas ‘fakes’

A Polícia Civil de Mato Grosso e o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) deflagraram,…

2 horas ago

Jovem de 24 anos morre após bater motocicleta contra poste em Várzea Grande

A jovem Mariana Steffany da Silva, de 24 anos, morreu na segunda-feira (26), após passar…

2 horas ago

Casal que perdeu loja em incêndio teve apartamento destruído pelo fogo há 1 mês em Cuiabá

Empresários estavam fora de casa quando o imóvel pegou fogo, em setembro; nesta terça-feira (27),…

2 horas ago