O Ministério Público Federal (MPF) acionou a Justiça contra a Agência Nacional de Mineração (ANM) após um estudo do Greenpeace apontar que autorizações de garimpo em Mato Grosso, Pará e Rondônia teriam sido usadas para “lavar” ouro extraído ilegalmente da Amazônia. Segundo o levantamento, o esquema movimentou 25,3 toneladas de ouro, avaliadas em cerca de R$ 18,4 bilhões, entre 2018 e março de 2026.
A reportagem entrou em contato com ANM, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
A ação, assinada no último dia 7 pelo procurador da República André Luiz Porreca Ferreira Cunha, aponta que a Permissão de Lavra Garimpeira (PLG), documento que autoriza a exploração de ouro em pequena escala, tem sido usada para dar aparência de legalidade ao minério extraído ilegalmente de terras indígenas e unidades de conservação.
Segundo o Ministério Público, as irregularidades foram identificadas a partir do relatório Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude, elaborado pelo Greenpeace Brasil e encaminhado ao órgão por meio de uma notícia de fato.
O estudo aponta indícios de irregularidades em 98 Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) distribuídas entre 20 titulares nos três estados. Ainda conforme o relatório, essas autorizações concentram 97% de todo o ouro declarado nos 187 processos minerários analisados pela ONG.
Na ação, o MPF afirma que o regime de PLG, instituído pela Lei nº 7.805/1989 para exploração de jazidas de pequeno porte, “converteu-se, na prática, no principal instrumento de lavagem de ouro extraído ilegalmente de Terras Indígenas e Unidades de Conservação de Proteção Integral na Amazônia”.
O Ministério Público lista três problemas considerados estruturais na atuação da ANM:
Na ação, o MPF pede que a Justiça determine que a ANM adote medidas para corrigir essas falhas, entre elas a criação, em até 30 dias, de um grupo de trabalho técnico para reestruturar o regime de Permissão de Lavra Garimpeira.
A ANM deverá, em até 60 dias, criar um programa nacional para revisar e suspender, de forma cautelar, todas as Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) que registraram recolhimento da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), mas não apresentem evidências físicas de atividade minerária.
O Ministério Público requer ainda que a agência apresente, em até 120 dias, um estudo técnico que sirva de base para uma nova regulamentação do regime de Permissão de Lavra Garimpeira.
Na última semana, o MPF cobrou explicações da União após indícios de que o garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, está sob o domínio do Comando Vermelho. O território indígena se tornou um dos mais devastados do país em razão da exploração ilegal de ouro, que se intensificou nos últimos dois anos com a presença de integrantes da facção criminosa.
O MPF solicitou que a União, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Agência Nacional de Mineração (ANM), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) apresentem informações sobre as ações adotadas para cumprir a decisão judicial proferida em 2022.
Segundo o MPF, o procedimento foi aberto após a constatação de que ainda não houve o cumprimento efetivo da sentença. Os órgãos também deverão esclarecer a suposta falta de articulação na execução do plano de proteção da terra indígena.
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