Por: Virginia Mendes
Uma pessoa que recebe o diagnóstico de câncer é uma pessoa antes e outra depois. Digo isso porque também enfrentei essa doença. Conheço o medo, a angústia e a força que precisamos encontrar, mesmo quando parece que já não temos nenhuma.
Estamos chegando ao fim do Outubro Rosa, mês dedicado à prevenção do câncer de mama. Embora minha história tenha sido com o câncer de pâncreas, sei que existem sentimentos que aproximam todos que enfrentam essa doença.
O câncer pode ser silencioso. Antes do diagnóstico, sentia uma fadiga intensa, uma ausência de forças que não conseguia explicar. Cheguei a fazer tratamento para depressão, mas não melhorava. Naquele período, minha família também enfrentava situações que vivíamos como perseguições políticas. Era uma mistura de sentimentos e desgaste emocional.
Quando recebi o diagnóstico, reagi com determinação, mas tive medo, sim! Houve momentos em que entreguei minha vida nas mãos de Deus e pedi que fosse feita a vontade Dele, mesmo que isso significasse partir. Não era desistência, era a fé me sustentando diante do desconhecido.
Aprendi que ninguém é obrigado a ser forte o tempo inteiro. Existe uma cobrança para que o paciente seja sempre positivo, mas chorar, sentir tristeza ou medo não significa desistir. O câncer não atinge apenas o corpo, mexe com a autoestima, com os sonhos e com toda a família. Muitas mulheres ainda enfrentam o abandono dos companheiros e a solidão durante o tratamento.
Por isso, uma palavra precisa estar presente nessa caminhada: acolhimento. Quem enfrenta o câncer precisa de tratamento, mas também de empatia, respeito e apoio emocional. Às vezes, tudo o que alguém precisa é de uma mão estendida e de alguém disposto a escutar.
Quero deixar um alerta às mulheres. Muitas vezes cuidamos de todos e esquecemos de nós mesmas. Toda mulher tem direito ao atendimento gratuito pelo SUS, começando pela Unidade Básica de Saúde. Quem possui histórico familiar de câncer deve buscar orientação. No caso do câncer de mama, quando descoberto precocemente, as chances de cura podem chegar a cerca de 90%, dependendo das características da doença.
Não ignore os sinais do seu corpo. Não espere o próximo Outubro Rosa para procurar ajuda.
Também quero transformar minha experiência em uma iniciativa na Câmara dos Deputados. Pretendo apresentar o projeto “Câncer Sem Espera”, para buscar mais agilidade no diagnóstico e no início do tratamento, fortalecendo o cumprimento dos direitos já previstos em lei.
O câncer não espera. Não quer saber se aquela mãe precisa trabalhar, se a família tem condições financeiras ou se o paciente precisa viajar para conseguir atendimento. Cada dia pode fazer diferença na recuperação e na cura.
Minha experiência me ensinou que não podemos romantizar o sofrimento. Quem enfrenta essa doença não precisa provar coragem a ninguém. Precisa de cuidado, dignidade e tratamento.
O Outubro Rosa termina, mas a prevenção e o cuidado precisam continuar. Às mulheres, deixo um pedido: olhem para vocês com o mesmo amor com que cuidam de quem amam.
Eu enfrentei o câncer e sei que, depois do diagnóstico, nunca mais olhamos para a vida da mesma maneira. Não espere outubro para cuidar de você. Sua vida merece atenção todos os dias.
Virginia Mendes é empresária, economista, ex-primeira-dama de Cuiabá e do estado de Mato Grosso, e deputada federal eleita nas últimas eleições.



