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Fiemt reúne especialistas para discutir caminhos e desafios da recuperação judicial

O Sistema Federação das Indústrias de Mato Grosso (Sistema Fiemt), por meio do Conselho Temático Tributário (CTT), promoveu o seminário “Descomplicando a Recuperação Judicial”. O encontro foi realizado na sede da entidade, em Cuiabá, nessa quinta-feira (27).

Mediado pela doutora em Direito Tributário Fernanda Silveira, o evento contou com a participação do juiz Márcio Aparecido Guedes; do advogado e administrador judicial Rafael Cisneiro; do superintendente da Organização das Cooperativas Brasileiras em Mato Grosso (OCB/MT), Frederico Azevedo; e do empresário Heitor Trentin, que relatou sua experiência com a recuperação judicial.

Na abertura, o presidente do Sistema Fiemt, Silvio Rangel, destacou que a recuperação judicial produz reflexos que vão além dos aspectos jurídicos e alcançam a gestão das empresas, os empregos e toda a cadeia de fornecedores e credores.

“A recuperação judicial precisa ser compreendida para além do aspecto jurídico. Nosso papel não é apenas representar a indústria diante das grandes pautas do Estado e do país, mas também oferecer informações que ajudem o empresário a compreender os cenários e tomar decisões com mais segurança”, afirmou.

Para o diretor da Fiemt e presidente do Conselho Temático Tributário, Vinicius Saragiotto, embora o assunto ainda provoque desconforto no meio empresarial, precisa fazer parte das discussões relacionadas à gestão dos negócios.

“Se estamos discutindo a recuperação judicial, é porque esse é um tema que o empresário precisa conhecer. Isso precisa estar na mesa em qualquer tomada de decisão empresarial. Para a Federação, a informação também é uma estratégia de gestão”, ressaltou.

Experiência de quem enfrentou a recuperação judicial

Sócio-fundador da Prol Móveis de Aço, Heitor Trentin contou que o processo de recuperação judicial da empresa durou seis anos. A crise teve início após investimentos realizados diante da expectativa de aumento da demanda com a Copa do Mundo de 2014 não apresentarem o retorno esperado. O processo começou em 2018 e foi encerrado em 2024.

“Para mim, como empresário, era uma vergonha entrar em recuperação judicial. Eu não queria nem sair na rua. Depois saiu no jornal e todo mundo ficou sabendo”, relatou.

Entre os desafios enfrentados, Trentin citou o caixa apertado, a manutenção da produção e dos empregos, a preservação da confiança dos clientes e a reconstrução da credibilidade junto aos fornecedores. “A pressão psicológica é a mais pesada, e você precisa estar preparado para isso”, disse.

O empresário também relatou que se reuniu com clientes para explicar a situação da empresa e recebeu apoio de parte deles, apesar do preconceito ainda associado à recuperação judicial.

Com base na experiência, Trentin destacou cinco pilares que contribuíram para a reestruturação da empresa: liderança presente, gestão baseada em dados, indicadores e fluxo de caixa, equipe comprometida, transparência na comunicação e disciplina diária.

Entre as principais lições, ele recomendou não ignorar os primeiros sinais da crise, tratar o caixa como prioridade, evitar o crescimento sem controle, buscar ajuda com antecedência, trabalhar com números confiáveis, comunicar a equipe, negociar e preservar relacionamentos.

Recuperação exige viabilidade e planejamento

O juiz Márcio Aparecido Guedes, titular da 1ª Vara Cível de Cuiabá, especializada em Recuperação Judicial e Falência, explicou que a Lei nº 11.101/2005 não busca exclusivamente proteger o devedor ou atender aos interesses dos credores, mas organizar a crise e preservar os valores econômicos que ainda possam ser mantidos.

“A viabilidade da empresa é muito importante, pois uma recuperação dependerá desse ponto. A lei não quer matar a empresa ou fazer com que ela feche as portas. Quando uma empresa entra em crise, arrasta fornecedores, bancos e tantos outros segmentos que estão ligados a ela”, afirmou.

Segundo o magistrado, é necessário abandonar duas visões equivocadas: a de que a recuperação judicial existe para salvar qualquer empresa e a de que toda empresa submetida ao processo deveria falir.

“O sistema busca algo mais difícil e mais importante: preservar valor econômico quando existe viabilidade e encerrar de forma organizada a atividade quando a continuidade apenas destrói valor”, explicou.

Guedes também ressaltou que ingressar em recuperação judicial não significa necessariamente que a empresa quebrou, mas que ela pode estar atravessando um período de crise. Ele alertou, entretanto, que o instrumento não deve ser entendido como uma moratória e que nem todos os pedidos apresentados são deferidos pelo Judiciário.

Durante o seminário, o juiz apresentou cinco orientações aos empresários:

Não esperar a insolvência para reconhecer a crise. Os sinais costumam aparecer antes, especialmente no fluxo de caixa e na necessidade recorrente de renegociar ou refinanciar dívidas de curto prazo.
Conhecer as garantias vinculadas às dívidas. Além de saber quanto deve, a empresa precisa identificar quem possui garantias, quais são elas, sobre quais ativos incidem e qual a ordem de prioridade.
Manter informações contábeis confiáveis e transparentes. Segundo o magistrado, não existe recuperação consistente sem uma contabilidade séria.
Preparar-se também como credor. Receber a comunicação de uma recuperação judicial e simplesmente aguardar pode comprometer as possibilidades de defesa e negociação.
Tratar a recuperação judicial como parte de um projeto de reorganização. “A petição judicial não recupera uma empresa. Quem recupera é a gestão, a governança, o capital, a produtividade, a negociação e a capacidade de voltar a gerar caixa”, enfatizou.

Mato Grosso possui 877 empresas em recuperação judicial

O coordenador do Observatório de Mato Grosso, Leonardo Zardo, apresentou um panorama da recuperação judicial no estado. Conforme dados da Receita Federal, Mato Grosso possui 877 empresas nessa situação em julho de 2026, o equivalente a 4,1% dos 21.183 registros do país.

O comércio lidera, com 306 empresas, seguido pelos serviços (243), agronegócio (219) e indústria (109). Entre as atividades, destacavam-se o cultivo de soja, com 114 registros, o transporte rodoviário de cargas, com 93, e a criação de bovinos para corte, com 85.

Cuiabá concentra 196 empresas, ou 22,3% do total estadual. Segundo Zardo, preços menos favoráveis, custos elevados, crédito mais caro e eventos climáticos adversos têm pressionado o caixa e aumentado o endividamento, especialmente nas cadeias da soja e da pecuária.

Fonte: Fiemt

O Noroeste

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