A Polícia Civil investiga mensagens compartilhadas em grupos do WhatsApp de Lucas do Rio Verde, a 354 km de Cuiabá, que sugeriam boicotes a empresas supostamente ligadas a apoiadores do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ações para impedir a chegada de ônibus com trabalhadores de outros estados a Mato Grosso.
Capturas de tela atribuídas aos grupos “Engenheiros e Arquitetos” e “Movimento Direita LRV” mostram mensagens que incentivavam a criação de listas de comerciantes identificados como apoiadores da esquerda e o boicote ao turismo no Nordeste. Em uma das conversas, um participante escreveu “só na bala agora”.
Em prints posteriores, administradores aparecem removendo participantes do grupo “Movimento Direita LRV”. Em uma das mensagens, um integrante afirma que havia “muita gente infiltrada” e propõe apagar o grupo. Em outra, um administrador informa que a reunião prevista havia sido cancelada. Os registros não confirmam se o grupo foi efetivamente excluída.
A Polícia Civil informou que instaurou inquérito na Delegacia de Lucas do Rio Verde para apurar possíveis crimes relacionados às mensagens. A investigação começou após a divulgação do caso pela imprensa e, logo depois, a unidade também foi procurada pelo juiz eleitoral do município.
Entre as hipóteses investigadas está a possível prática de induzir ou incitar discriminação por procedência nacional por meio digital, prevista no artigo 20, caput e § 2º, da Lei nº 7.716/1989.
Segundo a polícia, uma equipe esteve no local indicado nas mensagens na data em que supostamente ocorreria o boicote, mas o encontro previsto não aconteceu. Até a última atualização, não havia informação fornecida pelas autoridades sobre suspeitos formalmente identificados ou indiciados.
Em nota pública divulgada nesta terça-feira (27), a direção estadual do Partido dos Trabalhadores (PT-MT) manifestou preocupação com relatos de boicotes a estabelecimentos comerciais, ameaças de demissão e discriminação contra eleitores de Lula e pessoas de outras regiões do país em municípios de Mato Grosso.
O partido pediu que o governo estadual, as prefeituras, os parlamentares e as instituições do sistema de Justiça atuem na apuração das denúncias e na prevenção de novos casos. Também defendeu a proteção dos trabalhadores e o respeito aos direitos de todos, independentemente de suas escolhas políticas ou origem regional.
A nota ainda pediu que entidades empresariais e representantes da sociedade civil se posicionem contra possíveis práticas de perseguição econômica, discriminação e intolerância política.
O presidente do Centro de Tradições Nordestinas (CTN) de Lucas do Rio Verde, Gleibson de Oliveira, afirmou que a entidade recebeu capturas de tela, mensagens e relatos de hostilidade contra nordestinos e pessoas identificadas por suas opiniões políticas.
Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, Gleibson disse que o CTN reuniu documentos e procurou autoridades para que os fatos sejam apurados. Segundo ele, a iniciativa contou com apoio do gabinete do deputado estadual Valdir Barranco (PT).
De acordo com o pronunciamento, a entidade fez representações ao Ministério Público Federal (MPF), ao Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e a um órgão que o presidente do CTN chamou de “Ministério Público Municipal”.
O presidente do CTN também convocou a comunidade para uma mobilização pacífica marcada para quinta-feira (29), às 8h, na Câmara Municipal de Lucas do Rio Verde. No pronunciamento, ele afirmou que a iniciativa busca defender o respeito às pessoas de diferentes regiões do país.
O g1 entrou em contato com o Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT) para saber se houve alguma denúncia, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Já o MPMT informou que, até o momento, a Ouvidoria-Geral não identificou registro de denúncia ou representação relacionada à criação e à divulgação de listas de boicote a empresas por posicionamento político no estado.
O órgão acrescentou que situações envolvendo ameaças, intimidações, incitação à violência, discriminação, abuso de direito ou outras práticas ilícitas podem ser apuradas conforme a natureza dos fatos e os direitos envolvidos. Casos de pressão para demitir trabalhadores por suas convicções políticas podem ser encaminhados ao MPT.
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